No Tempo Errado
Passei a vida tentando conviver com uma dualidade.
As pessoas dizem que sou popular e inteligente.
Eu me vejo solitário, alguém do canto.
Mesmo quando era o festeiro, eu dançava, me exibia
e voltava para o canto.
Arrancava aplausos em eventos,
mas depois a realidade me dizia:
a felicidade e a proteção estavam no canto.
Desde criança fui assim.
Eu não ganhava presente, eu era excluído.
Mas eu fazia meus brinquedos.
Corria na rua com os colegas.
Tomava banho nas poças d'água.
E, mesmo assim, eu era feliz no silêncio.
Não entendia por que eu era assim.
Me chamavam de exibido, mal-educado, boçal, dono da verdade.
Mas eu sou apenas diferente.
Eu disse, certa vez, em uma reunião da igreja,
que nasci no tempo errado,
pois não vivo como a maioria das pessoas
e nem gosto do que elas gostam.
Alguns barulhos me deixam louco.
Outros, ainda que pequenos, repetidos, me tiram do sério.
Também me frustram a falta de atenção, a preguiça,
a falta de conhecimento dos outros.
A falta de sensibilidade com o poema, com a música e com a pintura
me fazem perceber que o mundo está louco,
que as pessoas estão ficando robotizadas.
Eu sou diferente. Vejo o mundo com outra ótica.
Dentro de mim tem um autista morrendo
porque o mundo não quer ver.
E eu mesmo não sabia.
Hoje me enxergo, me vejo e me aceito.
Não preciso de laudo.
Sei quem sou.
Agora percebo.
Alan Carlos Dias
Enviado por Alan Carlos Dias em 12/07/2026