Como pode não sentir?
Você decidiu sem me consultar.
Sem perguntar que tempestade ia abrir no meu peito.
Arrastou as malas para longe.
Centenas de quilômetros cortando águas turbulentas.
Diz que é teu aconchego,
teu berço de primavera,
o útero de onde vieste.
Que lá a felicidade mora nas ondas,
canta na garganta dos pássaros,
ronca no motor das embarcações
e dorme no sossego do rio.
Que abraçar tua parentela seria remédio pra alma.
Que essa é a vida que sempre sonhaste.
E nós?
Somos o café frio da manhã ao teu lado.
Somos fantasma na tua casa?
Somos menos que espuma?
Menos que árvore? Menos que canto?
Onde estavam as ondas nos dias em que o mundo desabou?
Quem segurou tua mão na prova do Enceja?
Quem ficou na porta esperando teu nome ser chamado?
Quem chorou contigo a busca pela prole perdida?
Quem arrancou pedaços de si pra costurar teu abrigo?
Acaso é o boto que te beija no alvorecer
e sussurra: "Eu te amo" antes do sol?
Acaso o pássaro vale mais que o riso da nossa filha?
Acaso a alegria de lá pesa mais
que os abraços que te damos todo santo dia?
Como pode não sentir
que essa ida nos esvazia,
nos dobra, nos diminui?
Lá os prazeres são faísca — acendem e apagam.
Aqui o nosso amor é brasa:
queima baixo, mas não apaga nunca.
Alan Carlos Dias
Enviado por Alan Carlos Dias em 12/07/2026